terça-feira, 19 de outubro de 2010

Escolher um tema para um trabalho académico ou investigação

Um tema frequentemente abordado, em especial nesta altura do ano (início do ano lectivo), é o da escolha de um tema para um trabalho académico. Os âmbitos, os níveis, as circunstâncias, o fôlego do trabalho podem variar, mas há um conjunto de problemas comuns a considerar.
Em primeiro lugar há que perceber que o tema não nasce de qualquer inspiração sobrenatural, nem é muito aconselhável basear a escolha numa mera meditação contemplativa. Ou seja, a escolha do tema é em si mesma uma parte do processo investigativo, e requer trabalho, discussão, análise.
Várias práticas são aconselháveis, e na maior parte dos casos não são mutuamente exclusivas. Naturalmente a lista que se segue não pretende ser exaustiva.

  1. Se se trata de uma disciplina de um curso, começar por analisar com cuidado o programa e a bibliografia. Ler  os textos indicados como fundamentais, e a partir daí procurar ideias, tópicos, assuntos. É preciso notar que há formas de leitura diversas, umas mais cuidadosas e demoradas que outras. Aqui trata-se de uma leitura relativamente rápida e superficial.
  2. Pesquisar em catálogos de bibliotecas e bases de dados relevantes, sobre a área científica do trabalho.
  3. Folhear manuais e livros da área, procurar temas nos índices e nos sumários de monografias e publicações periódicas
  4. Obviamente nos nossos dias, um passo fundamental (mas não isento de inconvenientes!) é a pesquisa na Internet. Aqui é necessário desenvolver competências para saber distinguir os diversos tipos de textos encontrados.
  5. Conversar com colegas, professores e orientadores.
  6. Registar várias ideias, começando por experimentar diversas hipótese de tema.
  7. Pensar, pensar, pensar muito.

Todo este processo deve ser registado e a sua descrição e reflexão fazem parte quer da proposta de investigação inicial quer do próprio relatório final, seja uma dissertação ou uma tese.
Algumas notas mais sobre a escolha de um tema:

  • Se se trata de uma dissertação de mestrado ou tese de doutoramento, é normalmente aconselhável a escolha de um tema em relação ao qual haja um distanciamento tão grande quanto possível. Isto desaconselha obviamente uma prática (aliás demasiado comum) de escolher temas ligados ao próprio serviço, trabalho ou actividade profissional do investigador. Para além de evidentes problemas relativos à necessária objectividade necessária ao trabalho científico, podem realmente surgir conflitos de interesses insanáveis.
  • O trabalho científico é feito para criar conhecimento em áreas determinadas. Mas o trabalho tem naturalmente de partir de conhecimentos prévios, e por isso é necessária uma revisão da literatura. Assim, a escolha do tema requer um equilíbrio difícil entre o conhecido e o desconhecido. Esta é uma questão que se põe de forma diversa nos diferentes graus académicos, e quanto mais avançados forem os estudos maior é a inovação expectável.
Escrevi este texto especificamente para ajudar alunos meus, a quem se levantam sempre muitas dúvidas nesta fase inicial do trabalho. Decidi partilhá-lo com quem o quiser ler, e ficaria muito contente se houvesse contributos, perguntas, discordâncias. Sou adepto da ideia de que a a partilha e discussão de ideias  nos fazem aprender a todos, e faço este blogue com essa finalidade.




domingo, 17 de outubro de 2010

Manifesto da IFLA/UNESCO sobre Bibliotecas Públicas


A liberdade, a prosperidade e o progresso da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem na posse das informações que lhes permitam exercer os seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade. A participação constructiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação.

Biblioteca Municipal de Almada
A biblioteca pública - porta de acesso local ao conhecimento - fornece as condições básicas para uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais.

Este Manifesto proclama a confiança que a UNESCO deposita na Biblioteca Pública, enquanto força viva para a educação, cultura e informação, e como agente essencial para a promoção da paz e do bem-estar espiritual nas mentes dos homens e mulheres.

Assim, a UNESCO encoraja as autoridades nacionais e locais a apoiar activamente e a comprometerem-se no desenvolvimento das bibliotecas públicas.
Biblioteca Municipal de Abrantes


A Biblioteca Pública

A biblioteca pública é o centro local de informação, tornando prontamente acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os géneros.

Biblioteca Municipal de Beja
Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais correntes, como por exemplo minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou reclusas.

Todos os grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As colecções e serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriados assim como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e adequadas às necessidades e condições. As colecções devem reflectir as tendências actuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua imaginação.

Biblioteca Municipal de Guimarães
As colecções e os serviços devem ser isentos de qualquer forma de censura ideológica, política ou religiosa e de pressões comerciais.


Missões da Biblioteca Pública

As missões-chave da biblioteca pública relacionadas com a informação, a literacia, a educação e a cultura são as seguintes:
1.     Criar e fortalecer hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância;
2.     Apoiar a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis;
3.     Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;
4.     Estimular a imaginação e criatividade das crianças e jovens;
Biblioteca Municipal de Oeiras
5.     Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas;
6.     Possibilitar o acesso a diferentes formas de expressão cultural das artes do espectáculo;
7.     Fomentar o diálogo intercultural e, em especial, a diversidade cultural;
8.     Apoiar a tradição oral;
9.     Assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local;
10.  Proporcionar serviços de informação adequados às empresas locais, associações e grupos de interesse;
11.  Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;
12.  Apoiar, participar e, se necessário, criar programas e actividades de alfabetização para os diferentes grupos etários.
Biblioteca Municipal do Porto (Almeida Garrett)


Financiamento, legislação e redes


·      Os serviços da biblioteca pública devem, em princípio, ser gratuitos. A biblioteca pública é da responsabilidade das autoridades locais e estatais. Deve ser objecto de uma legislação específica e financiada pelos governos nacionais e locais. Tem de ser uma componente essencial de qualquer estratégia a longo prazo para a cultura, o acesso à informação, a literacia e a educação.
Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim
·      Para assegurar a coordenação e cooperação das bibliotecas, a legislação e os planos estratégicos devem ainda definir e promover uma rede nacional de bibliotecas, baseada em padrões de serviço previamente acordados.
·      A rede de bibliotecas públicas deve ser criada em relação com as bibliotecas nacionais, regionais, de investigação e especializadas, assim como com as bibliotecas escolares e universitárias.


Funcionamento e gestão

·          Deve ser formulada uma política clara, definindo objectivos, prioridades e serviços, relacionados com as necessidades da comunidade local. A biblioteca pública deve ser eficazmente organizada e mantidos padrões profissionais de funcionamento.
·          Deve ser assegurada a cooperação com parceiros relevantes, por exemplo, grupos de utilizadores e outros profissionais a nível local, regional, nacional e mesmo internacional.
Biblioteca Municipal do Seixal
·          Os serviços têm de ser fisicamente acessíveis a todos os membros da comunidade. Tal supõe a existência de edifícios bem situados, boas condições para a leitura e o estudo, assim como o acesso a tecnologia adequada e horários convenientes para os utilizadores. Tal implica igualmente serviços destinados àqueles a quem é impossível frequentar a biblioteca.
·          Os serviços da biblioteca devem ser adaptados às diferentes necessidades das comunidades das zonas urbanas e rurais.
·          O bibliotecário é um intermediário activo entre os utilizadores e os recursos disponíveis. A formação profissional contínua do bibliotecário é indispensável para assegurar serviços adequados.
·          Têm de ser levados a cabo programas de formação de utilizadores de forma a fazê-los beneficiar de todos os recursos.


Implementação do Manifesto

É pedido a todos os que têm poder de decisão a nível nacional e local e à comunidade de bibliotecários em geral, em todo o mundo, que implementem os princípios expressos neste Manifesto.

***
O Manifesto é preparado em cooperação com a Federação Internacional de Associações de Bibliotecários (IFLA)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os melhores partem primeiro

Escreveu Plauto que "morre jovem o que os Deuses amam". Ocorreu-me esta ideia - talvez falsamente tranquilizadora - ao regressar há pouco do funeral da Isabel de Sousa.
Ainda não há muito tempo o Joaquim Mestre nos deixou e, agora, passados poucos meses, foi a Isabel que partiu. Não se aplicando literalmente o princípio proposto pelo dramaturgo, permito-me transformá-lo no enunciado que dá o título a esta nota.
Deuses egoístas estes, ou doenças estúpidas, que retiram ao nosso convívio os colegas mais brilhantes, mentes intranquilas, que tanto nos inspiraram, e ainda muito mais mais nos poderiam ensinar e estimular.
Com ambos convivi, sem poder propriamente reivindicar uma grande amizade ou uma intimidade muito próxima. Mas de ambos recebi lições pelo exemplo inovador, pela militância incansável, pela generosidade da entrega a uma causa: a das bibliotecas públicas e da promoção da leitura.
Por agora, ficámos mais pobres e mais sós. Mas estou certo que os seus exemplos inspiradores hão-de ser recordados e reviver nos conhecimentos e nas práticas de muitos colegas, principalmente dos mais jovens. 


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

domingo, 3 de outubro de 2010

Gestão de colecções e análise das necessidades da comunidade

A pergunta que em tempos idos (muito idos...) fiz a uma colega sobre quem decidia acerca da compra dos livros para as bibliotecas escolares, bem como a resposta obtida, estão na origem do facto de ter vindo a optar pela profissão de bibliotecário. 
A questão da constituição das colecções era já então para mim, intuitivamente, fulcral para o êxito ou fracasso de uma biblioteca. Até porque via no meu dia a dia de professor do ensino secundário que não havia na biblioteca escolar os livros e outros recursos que alunos e professores precisavam. Como eram eles adquiridos? Quem os escolhia? Que critérios eram seguidos? Ninguém me sabia dar a resposta.
Passaram mais de vinte anos e algumas coisas mudaram, mas o desinteresse (real, ainda que muitas vezes disfarçado) pela constituição e desenvolvimento das colecções continua a ser regra, com algumas poucas excepções. A Gestão de Colecções é uma disciplina essencial dos cursos de estudos de informação e de bibliotecas, mas tem infelizmente uma prática muito reduzida em Portugal. Uma simples busca no Google demonstra isto sem margens para dúvidas.
E contudo, o texto que se segue é retirado de um documento orientador básico, que nenhum bibliotecário desconhecerá. Aqui fica, para uma leitura atenta.

Análise das necessidades da comunidade
De modo a fornecer serviços que vão ao encontro das necessidades de toda a comunidade, a biblioteca pública tem em primeiro lugar de proceder à determinação dessas necessidades. Como as necessidades e as expectativas estão sujeitas a mudanças, este processo terá de ser repetido a intervalos regulares, provavelmente de cinco em cinco anos. Uma avaliação das necessidades de uma comunidade é um processo no qual a biblioteca recolhe informação pormenorizada sobre a comunidade local e as suas necessidades e serviços de biblioteca e de informação. O planeamento e o desenvolvimento de políticas baseiam-se no resultado desta avaliação, possibilitando assim a adequação dos serviços às necessidades. Em alguns países, a realização de um inquérito às necessidades de informação da comunidade é um requisito legal da autoridade local. A informação a ser recolhida incluirá:
·          dados sociodemográficos sobre a comunidade local, como por exemplo, o perfil etário e de sexo, a diversidade étnica e o nível educacional
·          dados sobre organizações na comunidade, como, por exemplo, instituições educativas, centros de saúde, hospitais, estabelecimentos prisionais, organizações voluntárias
·          informações sobre empresas e comércio na localidade
·          a área de captação da biblioteca, ou seja, onde os utilizadores da biblioteca vivem em relação às instalações da biblioteca
·          padrões de transporte na comunidade
·          serviços de informação fornecidos por outras organizações na comunidade
Esta não é uma lista exaustiva e seria necessária uma investigação mais aprofundada para determinar a informação necessária para avaliar as necessidades de informação da comunidade em cada situação. No entanto, o princípio da elaboração de um perfil da comunidade, permitindo ao bibliotecário e ao órgão da tutela planear o desenvolvimento e a promoção de serviços com base nas necessidades da comunidade, é importante seja qual for o contexto local. A avaliação deve ser complementada através de sondagens regulares aos utilizadores, com a finalidade de determinar quais os serviços de biblioteca e de informação pretendidos pelo público e a que nível, e a sua opinião sobre os serviços prestados. O trabalho de sondagem deve ser conduzido por especialistas e, para obter resultados mais objectivos, por uma organização externa, sempre que haja disponibilidade de recursos.

Os serviços da biblioteca pública : directrizes da IFLA/UNESCO (2001). 
[Lisboa] : Caminho, [2003].  (Caminho das bibliotecas & informação), pp. 107-108

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Methods for Qualitative Management Research in the Context of Social Systems Thinking

Methods for Qualitative Management Research in the Context of Social Systems Thinking
I would like to inform you that FQS 11(3) -- "Methods for Qualitative Management Research in the Context of Social Systems Thinking"
(http://www.qualitative-research.net/index.php/fqs/issue/view/35),
edited by Patricia Wolf, Jens O. Meissner, Terry Nolan, Mark Lemon, René John, Evangelia Baralou & Silke Seemann -- is available online (see http://www.qualitative-research.net/index.php/fqs/issue/archive for former issues). In addition to articles relating to "Methods for Qualitative Management Research," FQS 11(3) provides a number of selected single contributions (f.e. on sampling, the role of maps for visualizing knowledge, and discourse analysis), as well as articles belonging to FQS Reviews.

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Conselhos sobre o uso do tempo para estudantes de doutoramento

Referindo vários estudos levados a cabo, com especial incidência no Reino Unido, Emília Araújo deixa dez conselhos muito úteis sobre o uso do tempo, num livro que bem vale a pena ler.
  1. Procurar trabalhar sempre que a tarefa o permita num lugar que não esteja relacionado com outras atribuições (familiares, domésticas, administrativas).
  2. Seguir um plano de trabalhos definido pelo doutorando e seu orientador respeitando de forma estrita um horário de trabalho
  3. Resistir à tentação de colocar outras tarefas (por exemplo as domésticas) em primeiro lugar.
  4. Reservar no final do dia e da semana tempos destinados ao desporto, à família e a outras actividades informacionais e recreativas. Resistir à tentação de quebrar estas rotinas mesmo em alturas de "pico", como, por exemplo, a entrega de um artigo ou de um capítulo.
  5. Mostrar aos familiares, amigos e outros vizinhos que, apesar de não ter horários obrigatoriamente delimitados, cumpre um tempo de trabalho dentro de certas horas, não podendo ser incomodado com outras dúvidas.
  6. Evitar programar mudanças de casa ou alterações na decoração do espaço de residência durante a realização do doutoramento e preferir decorações simples e leves.
  7. Preferir trabalhar durante o dia, reservando tempo necessário para dormir.
  8. Evitar convidar amigos e outros familiares para visitar a sua residência durante este período, se isso requerer muito tempo de preparação: preferir visitá-los.
  9. Se tiver filhos, aproveitar toda a disponibilidade oferecida por familiares para cuidar deles em certos períodos ou passar com eles alguns dias.
  10. Aproveitar todos os momentos, mesmo quando não está directamente a trabalhar, para pensar sobre o trabalho, mantendo activos os projectos.




ARAÚJO, Emília Rodrigues, 1971- - O doutoramento : a odisseia de uma fase da vida. Lisboa : Colibri, 2006.

1º Encontro dos Bibliotecários da Beira Interior

1º Encontro dos Bibliotecários da Beira Interior
(Informação obtido através do sítio da RCBP/DGLB)
Rede Nacional de Bibliotecas Públicas
DATA :
24-09-2010
No dia 24 de Setembro realizou-se o Primeiro Encontro dos Bibliotecários da Beira Interior que reuniu todos os concelhos do Distrito de Castelo Branco. As Bibliotecas Municipais do distrito estão pois de PARABÉNS!

Foi efectivamente neste Encontro que todos os responsáveis pelas Bibliotecas Municipais do distrito se conheceram pela primeira vez e tal facto deu um tom especial e festivo a este dia de trabalho. Cada uma das Bibliotecas foi caracterizada, tornando evidente a necessidade de intercâmbio e de cooperação regular entre todos.

Os participantes ficaram ainda a conhecer a Biblioteca de Vila Velha de Ródão, a generosa anfitriã do Encontro, onde a par da formalização da Rede Distrital Bibliotecas Públicas também houve lugar ao convívio.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

“Ilusão (ou o que quiserem)” de Luísa Costa Gomes vence Prémio Fernando Namora - Cultura - PUBLICO.PT

O romance “Ilusão (ou o que quiserem)”, de Luísa Costa Gomes, é o vencedor do Prémio Literário Fernando Namora/Estoril Sol, pela inovação e ágil registo estilístico, como assinalou em acta o júri.
O blogue "De rerum natura" publica um pequeno mas interessante excerto aqui.