quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Investigar sim, mas longe de casa

Um colega e amigo comentou um post anterior em que eu defendia a vantagem de os estudantes de doutoramento ou mestrado escolherem temas para investigação que não estivessem directamente relacionados com os respectivos locais de trabalho. Argumentava que, pelo contrário seria positivo "um conhecimento profundo do contexto de funcionamento de um sistema, processo, etc."
Antes do mais agradeço ao Pedro Penteado ter-me respondido e discordado de mim. Estou convencido que só com discussão entre nós poderemos avançar alguma coisa na afirmação da nossa área científica.
Como a questão é interessante, e importante, e complexa, decidi fazer um novo post em vez de responder ao comentário dele.
No essencial, esta resposta constará da transcrição de um excerto de um dos poucos livros publicados em português sobre investigação qualitativa (Bogdan e Biklen, 1999). Mas antes disso, gostaria de fazer um pequeno comentário acerca do que é dito ser o "conhecimento profundo", dos respectivos locais de trabalho que supostamente beneficiaria a qualidade da investigação.
Ora se houve algo que aprendi com Barradas de Carvalho foi que não há nada mais ilusório do que o "conhecimento" obtido directamente através dos sentidos ou, digamos, da experiência e da prática diária. O que se obtém nestes casos são percepções muitas vezes ilusórias, que não resistem a uma simples reflexão epistemológica. Afinal, não nos diz a nossa experiência que a Terra é plana e o Sol se move à sua volta? E quantas vezes somos surpreendidos por conclusões que contrariam muito do que a nossa experiência diária nos levou a acreditar ser verdade. Isto para não entrar na própria discussão do que a verdade é ou não é...
E como pode um investigador livrar-se de suspeita de parcialidade, por exemplo ao analisar uma resposta a uma entrevista em que a prática do seu serviço é posta em causa? Como é sabido, à mulher de César não basta ser honesta. É que abundam por aí os "estudos" sobre serviços, que já li algures serem do tipo "olhem lá que bons que nós somos"!
Podem-se fazer estudos sobre os próprios serviços? Podem. Mas é preciso uma atenção especial e fazer um esforço suplementar para contornar os perigos de subjectividade e afinal provar que sim, é a mesma coisa, isto é foram feitos com todos os cuidados para assegurar critérios de confiança e credibilidade da investigação.
Muitos outros argumentos podem ser aduzidos em defesa da minha posição. Li sobre casos de pessoas que tiveram de optar entre mudar de emprego ou mudar de tópico.
Segue então a citação acima prometida, com uma recomendação para uma leitura se não de todo o livro pelo menos do capítulo completo "A escolha de um estudo" (pp. 85-88).


A segunda sugestão consiste na conveniência de não escolher um assunto em que está pessoalmente envolvido. Se ensina numa escola, por exemplo, não deve escolhê-la como local de pesquisa. (...) "Porquê? Não terei vantagens, em relação a alguém estranho se estudar a minha própria escola?Tenho relações excelentes e acesso garantido". Por vezes, isto pode ser verdade, e podem ser razões suficientes para ignorar o nosso conselho, mas, sobretudo num primeiro estudo, as razões para não o fazer são mais fortes. As pessoas intimamente envolvidas num ambiente têm dificuldade em distanciar-se, quer de preocupações pessoais, quer do conhecimento prévio que têm das situações. Para estas, muito frequentemente, as suas opiniões são mais do que "definições da situação", constituem a verdade.
Os outros protagonistas, no local onde efectua a sua pesquisa, se o conhecem bem, dificilmente o poderão considerar um observador imparcial. Mais facilmente o consideram como um professor ou membro de um grupo específico, como uma pessoa que representa determinada corrente de opinião e determinados interesses. Podem não se sentir à vontade para falar despreocupadamente como o fariam com outro investigador. Estudando a sua própria escola, por exemplo, um professor não pode esperar que o director discuta consigo objectivamente as suas opiniões acerca de outros colegas ou decisões que tomou no que diz respeito a contratações e despedimentos.
Conduzir uma investigação com pessoas que conhece pode ser confuso e embaraçoso. O treino de um investigador, mais do que a aprendizagem de competências e procedimentos específicos, consiste na análise de impressões acerca de si próprio e da sua relação com os outros. Implica que se sinta confortável no papel de "investigador". Se os objectos do seu estudo são pessoas que conhece, a transferência da sua personalidade própria para a de investigador faz-se de forma ambígua.
Apesar de lhe termos dado todos estes conselhos não é obrigatório segui-los de forma rígida. Você, principiante, pode achar que é suficientemente experiente ou que temcom os seus colegas uma relação tal que não vai ter de se preocupar com as questões referidas. Força! Pode tentar: se obtiver bons resultados, óptimo; se não o conseguir não lhe prometemos não dizer "já o tínhamos avisado".


Bogdan, R & Biklen, S. (1994). Investigação qualitativa em educação : Uma introdução à teoria e aos métodos. Porto : Porto Editora 

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Guia de Apoio à Publicação

Parabéns e obrigado aos Serviços de Documentação e Informação da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto pelo excelente Guia de Apoio à Publicação que disponibilizam no sue sítio na Internet.Estes serviços elaboraram um conjunto de conteúdos para orientação de quem pretende publicar na FEUP. Assim, este guia divulga um conjunto de boas práticas formais e éticas associadas à publicação, para apoio à comunidade académica. 
Os conteúdos aqui desenvolvidos vão desde a preparação dos conteúdos a publicar, abordando genericamente aspectos metodológicos e formais, à selecção da fonte onde publicar, fazendo referência a questões relacionadas com o processo de publicação, como políticas editoriais, processo de peer-review, direitos de autor, política de acesso livre, etc.. Não se pretende ser exaustivo mas sim realçar alguns aspectos essenciais que sirvam como ponto de partida para quem se inicia neste processo, independentemente do tipo de documento que se pretende publicar.
Pretende-se, por outro lado, que os conteúdos incluídos neste guia possam ser comentados e melhorados num processo participado pela comunidade, usando as facilidades proporcionadas pela plataforma que gere estes conteúdos (wiki)

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Como fazer uma proposta de investigação

Com frequência se colocam muitas dúvidas sobre o que deve constar numa proposta de investigação.
Seguem-se duas propostas de estrutura que não são rígidas e devem ser consideradas como uma orientação. Em todo o caso, os elementos mencionados devem constar da Proposta de Investigação, e para um esclarecimento completo, recomenda-se a consulta da bibliografia fornecida, particularmente dos capítulos que abordam este assunto.

ESTRUTURA A (mais detalhada)
Título
Introdução
Fins e objectivos da investigação
Revisão da literatura
Plano da investigação
Método(s)
Técnicas de recolha de dados
Instrumentos da investigação
Amostra
Procedimentos para o processamento e análise dos dados
Resultados esperados
Dificuldades esperadas
Limitações impostas pelo plano
Problemas logísticos
Considerações éticas
Cronograma

ESTRUTURA B (mais genérica)
Título
Introdução
Fins e objectivos da investigação
Revisão da literatura
Método(s) de  investigação
Considerações éticas
Cronograma

Apresentação
Tenha cuidado e faça uma apresentação profissional da sua proposta. Uma proposta bem apresentada, que mostre ter sido reunida com cuidado e rigor causará muito melhor impressão do que uma que pareça ter sido acabada à pressa a caminho do trabalho.

Bibliografia
Bell, J. (1997). Como fazer um projecto de investigação. Lisboa : Gradiva,
Bryman, A (2008). Social research methods. 3rd. ed. Oxford : Oxford University Press
Moore, N. (2006). How to do research : A practical guide to designing and managing research projects. 3rd. ed. London : Facet Publishing
Pickard, A. J. (2007). Research methods in information. London : Facet

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

O ensino de métodos de investigação em Ciências da Informação e Documentação

Em Portugal, a investigação em Ciências da Informação e Documentação dá os primeiros passos, principalmente no âmbito de cursos de Mestrado e Doutoramento.
Por razões que neste contexto não tem cabimento discutir, um dos aspectos mais importantes destes programas na minha opinião é, ou deveria ser, o ensino de métodos de investigação.
Pareceu-me assim oportuno chamar a atenção para uma comunicação à 71ª Conferência da IFLA, que teve lugar em Oslo, em 2005. Anne Morris deu conta de um estudo realizado no Reino Unido sobre o ensino de métodos de investigação nos cursos de pós-graduação (mestrado e Doutoramento) .
Para além de recomendar naturalmente a leitura desse pequeno texto, começo por chamar a atenção para dois elementos essenciais, que além do mais são facilmente comparáveis com a nossa realidade: os temas abordados nessas disciplinas e as bibliografias aconselhadas.


Temas
Não sendo exaustiva, a lista dos tópicos ensinados nestas disciplinas eram (tradução minha):
  • Introdução ao processo de investigação, o que é investigação, e porque se leva a cabo;
  • Princípios e projectos  de investigação;
  • A identificação de temas de investigação e o desenvolvimento de perguntas de investigação;
  • A crítica da investigação;
  • Pesquisa, revisão e citação da literatura;
  • Planeamento da investigação: a escrita de projectos de investigação, gestão do tempo, financiamento
  • Métodos qualitativos: uso de fontes documentais primárias e secundárias, entrevistas, grupos focais, estudos de caso, diários, observação, avaliação, método Delphi, análise do discurso, análise visual;
  • Métodos quantitativos: sondagens e desenho de questionários, análise de registos (bibliométricos, de acesso a sistemas, análise de conteúdo) e experimentações;
  • Amostragem;
  • Análise de dados qualitativos
  • Análise de dados quantitativos
  • Apresentação dos dados;
  • A escrita de dissertações e relatórios;
  • Ética de investigação
Leituras recomendadas
A autora fez também um levantamento das principais leituras recomendadas nestes cursos, tendo concluído então que o livro mais recomendado era o primeiro da lista abaixo, que está ordenada por ordem de popularidade. O último livro da lista não podia constar das leituras recomendadas pois não havia ainda sido publicado nessa altura. Acrescento-o eu, com uma forte recomendação de leitura, pois considero-o de facto muito útil, Assinalo com um asterisco quatro que considero fundamentais.



  • Denscombe, M. (2003) The good research guide for small scale social research projects, 2nd edition, Buckingham: Open University Press *
  • Robson, C. (2002) : Real world research, 2nd edition, Oxford: Blackwell 
  • Bell, J. (1999) Doing your research project, 3rd edition, Buckingham: Open University Press [Existe versão portuguesa] *
  • Oppenheim, A. N. (1992) Questionnaire design, interviewing and attitude measurement, 2nd edition, London: Pinter 
  • Moore, N. (2000) How to do research, 3rd ed., London: The Library Association *
  • Gorman, G. E. and Clayton, P. (1997) Qualitative research for the information professional. London: The Library Association
  • Bryman, A. (2004) Social research methods, 2nd edition, Oxford: Oxford University Press
  • Blaxter, C.H. & Tight, M. (2003): How to research, 2nd edition, Buckingham: Open University Press.
  • Powell, R.R. (1997) Basic research methods for librarians, 3rd edition, London: Ablex Publishing.
  • Slater, M. (ed), (1990) Research methods in library and information studies, London: The Library Association.
  • Babbie, E. (2000) The practice of social research, Belmont, Calif: Wadsworth.
  • Hart, C. (1998) Doing a literature review: releasing the social science imagination, London: SAGE.
  • Gash, S. (2000) Effective literature searching for research, 2nd edition, Gower.
  • Stephen, P. and Hornby, S. (1997) Simple statistics for library and information professionals, 2nd edition, London: The Library Association.
  • Pickard, A. J. (2007) Research methods in information, London, Facet Publishing *


Sítios na Internet
A autora identifica também os seguintes sítios na Internet como sendo frequentemente recomendados. Os sítios estão hoje em diferentes fases das suas vidas, alguns há muito que não são actualizados, mas não deixam de ser indicações úteis.





  • Stephenson, S. Research methods resources on the web (http://www.slais.ubc.ca/resources/research_methods/index.htm)
  • Wilson, T. Electronic Resources for Information Research Methods (http://informationr.net/rm/)
  • IS world website (http://www.isworld.org) 
  • BUBL list of research methods resources: http://bubl.ac.uk/link/r/researchmethods.htm 
  • List of research methods links from Glasgow Caledonian University: http://oassis.gcal.ac.uk/rms/crml/crml.html 
  • Social Research Update: http://sru.soc.surrey.ac.uk/

Simpósio Interdisciplinar



NO CENTENÁRIO DA PRIMEIRA REPÚBLICA

SIMPÓSIO INTERDISCIPLINAR 2010

23 de Outubro de 2010

Programa

10:00 Abertura do Simpósio Interdisciplinar
– Boas-vindas por Benoît Gibson (UnIMeM-Universidade de Évora)
– Apresentação do Simpósio por Vanda de Sá (UnIMeM-Universidade de Évora)
10:30 “Música nos salões da Primeira República”, conferência-concerto por Patrícia Lopes Bastos (ANIMUSIC/UnIMeM-Universidade de Évora)
11:00 “Ideologia e prática: o conceito e desenvolvimento das bibliotecas públicas” por Henrique Barreto Nunes (Universidade do Minho, Braga)
11:30 Pausa-café
12:00 “A República no Humor” por Osvaldo Macedo de Sousa (Humorgrafe, Lisboa)
12:30 “Novo século, novos instrumentos” por Cristina Bordas (Universidade Complutense de Madrid)
13:00 Almoço
14:30 “A questão religiosa na Primeira República” por Frei Geraldo Coelho Dias (Universidade do Porto)
15:00 “Acção proto-sindical e controlo monopolístico: a Irmandade de Santa Cecília no primeiro liberalismo” por Francesco Esposito(CESEM, FCSH - Universidade Nova de Lisboa)
15:30 “Mulheres, educação e sociedade – discursos femininos na Primeira República” por Maria João Mogarro e Olga Ribeiro (ESE-Instituto Politécnico de Portalegre / Câmara Municipal de Portalegre)
16:15 Pausa-café
16:30 “Crítica musical nas primeiras décadas do século” por Maria José Artiaga (CESEM, Lisboa)
17:00 “O Múseu da Música na Primeira República” por Victor Palma (Museu da Música, Lisboa)
17:30 Apresentação do projecto “Sons da República” por Paulo Lima e José Moças (Tradisom World Music)
18:30 Encerramento do Simpósio
LOCAL: DEPARTAMENTO DE MÚSICA DA UNIVERSIDADE DE ÉVORA
ORGANIZAÇÃO: UnIMeM-Unidade de Investigação em Música e Musicologia (Universidade de Évora)
ANIMUSIC-Associação Nacional de Instrumentos Musicais.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Escolher um tema para um trabalho académico ou investigação

Um tema frequentemente abordado, em especial nesta altura do ano (início do ano lectivo), é o da escolha de um tema para um trabalho académico. Os âmbitos, os níveis, as circunstâncias, o fôlego do trabalho podem variar, mas há um conjunto de problemas comuns a considerar.
Em primeiro lugar há que perceber que o tema não nasce de qualquer inspiração sobrenatural, nem é muito aconselhável basear a escolha numa mera meditação contemplativa. Ou seja, a escolha do tema é em si mesma uma parte do processo investigativo, e requer trabalho, discussão, análise.
Várias práticas são aconselháveis, e na maior parte dos casos não são mutuamente exclusivas. Naturalmente a lista que se segue não pretende ser exaustiva.

  1. Se se trata de uma disciplina de um curso, começar por analisar com cuidado o programa e a bibliografia. Ler  os textos indicados como fundamentais, e a partir daí procurar ideias, tópicos, assuntos. É preciso notar que há formas de leitura diversas, umas mais cuidadosas e demoradas que outras. Aqui trata-se de uma leitura relativamente rápida e superficial.
  2. Pesquisar em catálogos de bibliotecas e bases de dados relevantes, sobre a área científica do trabalho.
  3. Folhear manuais e livros da área, procurar temas nos índices e nos sumários de monografias e publicações periódicas
  4. Obviamente nos nossos dias, um passo fundamental (mas não isento de inconvenientes!) é a pesquisa na Internet. Aqui é necessário desenvolver competências para saber distinguir os diversos tipos de textos encontrados.
  5. Conversar com colegas, professores e orientadores.
  6. Registar várias ideias, começando por experimentar diversas hipótese de tema.
  7. Pensar, pensar, pensar muito.

Todo este processo deve ser registado e a sua descrição e reflexão fazem parte quer da proposta de investigação inicial quer do próprio relatório final, seja uma dissertação ou uma tese.
Algumas notas mais sobre a escolha de um tema:

  • Se se trata de uma dissertação de mestrado ou tese de doutoramento, é normalmente aconselhável a escolha de um tema em relação ao qual haja um distanciamento tão grande quanto possível. Isto desaconselha obviamente uma prática (aliás demasiado comum) de escolher temas ligados ao próprio serviço, trabalho ou actividade profissional do investigador. Para além de evidentes problemas relativos à necessária objectividade necessária ao trabalho científico, podem realmente surgir conflitos de interesses insanáveis.
  • O trabalho científico é feito para criar conhecimento em áreas determinadas. Mas o trabalho tem naturalmente de partir de conhecimentos prévios, e por isso é necessária uma revisão da literatura. Assim, a escolha do tema requer um equilíbrio difícil entre o conhecido e o desconhecido. Esta é uma questão que se põe de forma diversa nos diferentes graus académicos, e quanto mais avançados forem os estudos maior é a inovação expectável.
Escrevi este texto especificamente para ajudar alunos meus, a quem se levantam sempre muitas dúvidas nesta fase inicial do trabalho. Decidi partilhá-lo com quem o quiser ler, e ficaria muito contente se houvesse contributos, perguntas, discordâncias. Sou adepto da ideia de que a a partilha e discussão de ideias  nos fazem aprender a todos, e faço este blogue com essa finalidade.




domingo, 17 de outubro de 2010

Manifesto da IFLA/UNESCO sobre Bibliotecas Públicas


A liberdade, a prosperidade e o progresso da sociedade e dos indivíduos são valores humanos fundamentais. Só serão atingidos quando os cidadãos estiverem na posse das informações que lhes permitam exercer os seus direitos democráticos e ter um papel activo na sociedade. A participação constructiva e o desenvolvimento da democracia dependem tanto de uma educação satisfatória como de um acesso livre e sem limites ao conhecimento, ao pensamento, à cultura e à informação.

Biblioteca Municipal de Almada
A biblioteca pública - porta de acesso local ao conhecimento - fornece as condições básicas para uma aprendizagem contínua, para uma tomada de decisão independente e para o desenvolvimento cultural dos indivíduos e dos grupos sociais.

Este Manifesto proclama a confiança que a UNESCO deposita na Biblioteca Pública, enquanto força viva para a educação, cultura e informação, e como agente essencial para a promoção da paz e do bem-estar espiritual nas mentes dos homens e mulheres.

Assim, a UNESCO encoraja as autoridades nacionais e locais a apoiar activamente e a comprometerem-se no desenvolvimento das bibliotecas públicas.
Biblioteca Municipal de Abrantes


A Biblioteca Pública

A biblioteca pública é o centro local de informação, tornando prontamente acessíveis aos seus utilizadores o conhecimento e a informação de todos os géneros.

Biblioteca Municipal de Beja
Os serviços da biblioteca pública devem ser oferecidos com base na igualdade de acesso para todos, sem distinção de idade, raça, sexo, religião, nacionalidade, língua ou condição social. Serviços e materiais específicos devem ser postos à disposição dos utilizadores que, por qualquer razão, não possam usar os serviços e os materiais correntes, como por exemplo minorias linguísticas, pessoas deficientes, hospitalizadas ou reclusas.

Todos os grupos etários devem encontrar documentos adequados às suas necessidades. As colecções e serviços devem incluir todos os tipos de suporte e tecnologias modernas apropriados assim como fundos tradicionais. É essencial que sejam de elevada qualidade e adequadas às necessidades e condições. As colecções devem reflectir as tendências actuais e a evolução da sociedade, bem como a memória da humanidade e o produto da sua imaginação.

Biblioteca Municipal de Guimarães
As colecções e os serviços devem ser isentos de qualquer forma de censura ideológica, política ou religiosa e de pressões comerciais.


Missões da Biblioteca Pública

As missões-chave da biblioteca pública relacionadas com a informação, a literacia, a educação e a cultura são as seguintes:
1.     Criar e fortalecer hábitos de leitura nas crianças, desde a primeira infância;
2.     Apoiar a educação individual e a autoformação, assim como a educação formal a todos os níveis;
3.     Assegurar a cada pessoa os meios para evoluir de forma criativa;
4.     Estimular a imaginação e criatividade das crianças e jovens;
Biblioteca Municipal de Oeiras
5.     Promover o conhecimento sobre a herança cultural, o apreço pelas artes e pelas realizações e inovações científicas;
6.     Possibilitar o acesso a diferentes formas de expressão cultural das artes do espectáculo;
7.     Fomentar o diálogo intercultural e, em especial, a diversidade cultural;
8.     Apoiar a tradição oral;
9.     Assegurar o acesso dos cidadãos a todos os tipos de informação da comunidade local;
10.  Proporcionar serviços de informação adequados às empresas locais, associações e grupos de interesse;
11.  Facilitar o desenvolvimento da capacidade de utilizar a informação e a informática;
12.  Apoiar, participar e, se necessário, criar programas e actividades de alfabetização para os diferentes grupos etários.
Biblioteca Municipal do Porto (Almeida Garrett)


Financiamento, legislação e redes


·      Os serviços da biblioteca pública devem, em princípio, ser gratuitos. A biblioteca pública é da responsabilidade das autoridades locais e estatais. Deve ser objecto de uma legislação específica e financiada pelos governos nacionais e locais. Tem de ser uma componente essencial de qualquer estratégia a longo prazo para a cultura, o acesso à informação, a literacia e a educação.
Biblioteca Municipal da Póvoa de Varzim
·      Para assegurar a coordenação e cooperação das bibliotecas, a legislação e os planos estratégicos devem ainda definir e promover uma rede nacional de bibliotecas, baseada em padrões de serviço previamente acordados.
·      A rede de bibliotecas públicas deve ser criada em relação com as bibliotecas nacionais, regionais, de investigação e especializadas, assim como com as bibliotecas escolares e universitárias.


Funcionamento e gestão

·          Deve ser formulada uma política clara, definindo objectivos, prioridades e serviços, relacionados com as necessidades da comunidade local. A biblioteca pública deve ser eficazmente organizada e mantidos padrões profissionais de funcionamento.
·          Deve ser assegurada a cooperação com parceiros relevantes, por exemplo, grupos de utilizadores e outros profissionais a nível local, regional, nacional e mesmo internacional.
Biblioteca Municipal do Seixal
·          Os serviços têm de ser fisicamente acessíveis a todos os membros da comunidade. Tal supõe a existência de edifícios bem situados, boas condições para a leitura e o estudo, assim como o acesso a tecnologia adequada e horários convenientes para os utilizadores. Tal implica igualmente serviços destinados àqueles a quem é impossível frequentar a biblioteca.
·          Os serviços da biblioteca devem ser adaptados às diferentes necessidades das comunidades das zonas urbanas e rurais.
·          O bibliotecário é um intermediário activo entre os utilizadores e os recursos disponíveis. A formação profissional contínua do bibliotecário é indispensável para assegurar serviços adequados.
·          Têm de ser levados a cabo programas de formação de utilizadores de forma a fazê-los beneficiar de todos os recursos.


Implementação do Manifesto

É pedido a todos os que têm poder de decisão a nível nacional e local e à comunidade de bibliotecários em geral, em todo o mundo, que implementem os princípios expressos neste Manifesto.

***
O Manifesto é preparado em cooperação com a Federação Internacional de Associações de Bibliotecários (IFLA)

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Os melhores partem primeiro

Escreveu Plauto que "morre jovem o que os Deuses amam". Ocorreu-me esta ideia - talvez falsamente tranquilizadora - ao regressar há pouco do funeral da Isabel de Sousa.
Ainda não há muito tempo o Joaquim Mestre nos deixou e, agora, passados poucos meses, foi a Isabel que partiu. Não se aplicando literalmente o princípio proposto pelo dramaturgo, permito-me transformá-lo no enunciado que dá o título a esta nota.
Deuses egoístas estes, ou doenças estúpidas, que retiram ao nosso convívio os colegas mais brilhantes, mentes intranquilas, que tanto nos inspiraram, e ainda muito mais mais nos poderiam ensinar e estimular.
Com ambos convivi, sem poder propriamente reivindicar uma grande amizade ou uma intimidade muito próxima. Mas de ambos recebi lições pelo exemplo inovador, pela militância incansável, pela generosidade da entrega a uma causa: a das bibliotecas públicas e da promoção da leitura.
Por agora, ficámos mais pobres e mais sós. Mas estou certo que os seus exemplos inspiradores hão-de ser recordados e reviver nos conhecimentos e nas práticas de muitos colegas, principalmente dos mais jovens.